O que eu penso sobre os aplicativos de relacionamentos
Quando o assunto são aplicativos de relacionamento, é comum encontrar opiniões bastante polarizadas. De um lado, há quem diga que eles “acabaram com os relacionamentos”, tornaram as pessoas descartáveis, diminuíram a paciência para construir intimidade e criaram a sensação de que sempre existe alguém melhor a poucos cliques de distância. Do outro, existem pessoas que enxergam os aplicativos como uma excelente maneira de conhecer gente nova, especialmente em uma rotina cada vez mais corrida, em que nem sempre temos tantas oportunidades de ampliar naturalmente nossos círculos sociais. E, como psicóloga que trabalha principalmente com questões relacionadas aos relacionamentos, talvez minha opinião seja menos radical do que algumas pessoas imaginam.
Eu não considero os aplicativos de paquera os grandes vilões dos relacionamentos modernos, mas também não acredito que eles sejam uma solução automática para a solidão. Na prática, penso neles como uma ferramenta que facilita o encontro entre pessoas e, como qualquer ferramenta, seus efeitos dependem muito da maneira como ela é utilizada. Mais do que o aplicativo em si, importa entender o lugar emocional a partir do qual alguém entra naquele espaço, o que espera encontrar, como lida com frustração, rejeição e comparação, e qual função aquele aplicativo começa a ocupar em sua vida.
Tenho pacientes que conheceram seus parceiros em aplicativos e hoje vivem relações saudáveis, consistentes e significativas. O fato de um relacionamento ter começado com um match não diz praticamente nada sobre a qualidade do vínculo que será construído depois. Da mesma maneira, também acompanho pessoas para quem os aplicativos se transformaram em uma importante fonte de ansiedade, insegurança e necessidade constante de validação. São pessoas que passam a verificar frequentemente se receberam novos matches, percebem uma queda na autoestima quando ficam alguns dias sem curtidas, interpretam o silêncio de alguém como uma confirmação de que não são interessantes o suficiente ou voltam imediatamente para o aplicativo depois de uma rejeição, buscando outra conexão que alivie aquele desconforto.
É por isso que, para mim, o problema raramente está apenas no aplicativo. Muitas vezes, ele está na expectativa depositada naquele espaço e no papel que ele começa a assumir emocionalmente. Quando alguém utiliza um aplicativo para conhecer pessoas, conversar, ampliar possibilidades e eventualmente construir uma relação, ele pode cumprir exatamente essa função. Mas quando começa a ser utilizado para preencher um vazio emocional, diminuir a solidão, regular a autoestima ou confirmar constantemente que ainda se é desejável, a experiência pode se tornar bastante desgastante.
O aplicativo não cria todos os problemas, mas pode amplificar alguns deles
É fácil responsabilizar os aplicativos porque eles realmente mudaram a forma como conhecemos e nos relacionamos com novas pessoas. Em poucos minutos, conseguimos visualizar dezenas ou centenas de perfis de pessoas que, algumas décadas atrás, provavelmente jamais cruzariam nosso caminho. Isso amplia possibilidades e pode ser especialmente positivo para quem possui uma rotina mais restrita, mudou recentemente de cidade, trabalha de casa, frequenta poucos espaços sociais ou pertence a grupos em que encontrar parceiros compatíveis espontaneamente pode ser mais difícil.
Ao mesmo tempo, a quantidade de opções disponíveis pode produzir uma experiência emocional bastante particular. Quando sempre parece existir outra pessoa logo depois, pode surgir a fantasia de que talvez exista alguém perfeitamente compatível esperando para ser encontrado. Se uma conversa começa a ficar difícil, outra pode ser iniciada. Se aparece uma característica que incomoda, dezenas de perfis continuam disponíveis. Se o encontro foi apenas “bom”, talvez o próximo seja extraordinário. Aos poucos, sem perceber, algumas pessoas começam a se relacionar com a possibilidade de encontrar alguém da mesma forma que escolheriam entre diferentes opções de um catálogo.
O problema é que relacionamentos reais raramente funcionam dessa maneira. Toda pessoa que você conhecer terá características que encantam e outras que frustram. Qualquer vínculo suficientemente próximo exigirá negociação, capacidade de comunicar necessidades, tolerância às diferenças, disposição para reparar conflitos e curiosidade para conhecer alguém para além daquilo que foi apresentado no primeiro encontro. Você pode filtrar altura, profissão, estilo de vida, gostos, aparência, orientação política, religião ou aquilo que considera importante, mas nenhum aplicativo consegue antecipar como aquela pessoa lidará com você quando estiver frustrada, como responderá a um limite ou se haverá consistência entre aquilo que ela diz e aquilo que faz.
Por isso, compatibilidade não é apenas uma soma de características semelhantes. Ela também aparece na experiência. Na maneira como a conversa acontece, na segurança que se constrói, na reciprocidade, na capacidade de conversar quando algo incomoda e na possibilidade de existir como você é dentro daquela relação. Um perfil pode trazer muitas informações, mas não consegue reproduzir o que acontece quando duas pessoas começam efetivamente a construir intimidade.
O que você está procurando quando abre um aplicativo?
Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes para quem utiliza aplicativos de relacionamento. Duas pessoas podem baixar exatamente o mesmo aplicativo e ter experiências completamente diferentes, porque estão entrando naquele espaço a partir de necessidades emocionais distintas. Uma pessoa pode pensar: “Quero conhecer gente nova. Se surgir alguém interessante, ótimo.” Outra pode entrar com uma sensação muito mais urgente: “Eu preciso encontrar alguém para parar de me sentir sozinha.”
Nas duas situações existe um desejo de conexão, mas a relação com o aplicativo pode se tornar completamente diferente. Quando existe a expectativa de que outra pessoa finalmente resolva uma sensação de vazio, inadequação ou solidão, cada interação começa a carregar um peso maior. Um match deixa de ser apenas o sinal de que duas pessoas se acharam interessantes e pode virar uma pequena confirmação de valor pessoal: “alguém me achou bonita”, “ainda consigo despertar interesse”, “talvez eu seja desejável”. Aos poucos, o aplicativo pode se transformar em um termômetro emocional.
O problema aparece quando a autoestima começa a oscilar conforme aquilo que acontece ali. Se existem matches e conversas, a pessoa se sente desejada. Se ninguém responde ou há menos interações durante alguns dias, começam as perguntas: “será que tem alguma coisa errada comigo?”, “será que não sou atraente o suficiente?”, “será que ninguém vai se interessar por mim?”. Nesse momento, é importante lembrar que a dinâmica de um aplicativo não é uma medida confiável da sua beleza, do seu valor ou da sua capacidade de construir um relacionamento.
Existem inúmeros fatores envolvidos em uma interação digital: algoritmos, localização, preferências, quantidade de pessoas ativas naquele momento, pessoas que baixaram o aplicativo e quase não entram, alguém que começou outra relação, alguém que perdeu o interesse, alguém que estava apenas curiosa ou simplesmente alguém que não percebeu compatibilidade. Nem todo silêncio significa rejeição e, principalmente, nem toda rejeição significa inadequação. Ser rejeitada por uma pessoa é uma experiência possível dentro de qualquer relação humana; isso não significa ser uma pessoa rejeitável.
Quando muitas possibilidades começam a dificultar as escolhas
Ter muitas opções parece, à primeira vista, uma grande vantagem. Se existem mais pessoas disponíveis, teoricamente aumentam as chances de encontrar alguém compatível. Mas um número muito grande de possibilidades também pode dificultar a capacidade de escolher e permanecer. Quando sempre existe a sensação de que pode haver alguém “melhor” logo depois, algumas pessoas entram em uma busca praticamente interminável.
Você conhece alguém interessante, mas continua deslizando perfis. Começa a se envolver, mas permanece comparando aquela pessoa com outras possibilidades. Gosta de vários aspectos do vínculo, mas continua pensando se não existiria alguém mais bonito, mais engraçado, mais inteligente, mais disponível, mais parecido com você ou com menos características que incomodem. Esse movimento não precisa ser consciente para interferir na construção de intimidade.
Conhecer alguém de verdade exige permanecer tempo suficiente para que a pessoa deixe de ser apenas uma possibilidade idealizada. No início, existe novidade, curiosidade, expectativa e muito espaço para projeções. Depois aparecem limites, manias, diferenças, inseguranças, contradições e coisas que provavelmente não estavam escritas na biografia do aplicativo. É justamente nesse momento que a relação começa a sair do campo da fantasia e entrar no campo da realidade.
Isso não significa que você deva insistir em relações que não fazem sentido ou ignorar incompatibilidades importantes. Significa apenas reconhecer que nenhuma pessoa real será exatamente igual ao personagem que criamos mentalmente. Se toda pequena frustração for interpretada como um sinal de que é melhor procurar outra opção, pode ser difícil permanecer tempo suficiente para descobrir se existe algo que realmente valha a pena construir.
Às vezes, a intimidade emocional acontece antes do encontro
Os aplicativos também possibilitam algo que pode ser positivo, mas merece atenção: conversar intensamente com uma pessoa antes mesmo de encontrá-la presencialmente. Em alguns casos, são dias ou semanas de troca de mensagens, áudios, confidências, histórias de vida, gostos, planos, experiências anteriores, medos e expectativas. A sensação de proximidade pode aumentar rapidamente, mesmo que aquelas duas pessoas ainda não tenham compartilhado uma experiência concreta fora da tela.
O ponto delicado é que, enquanto conhecemos algumas partes daquela pessoa, existem muitos espaços em branco. E nossa mente costuma preenchê-los. Começamos a imaginar como ela seria em um relacionamento, como seria o primeiro encontro, como trataria você, como seria conviver com ela, quanto vocês combinariam e até quais caminhos aquela conexão poderia tomar. Nesse momento, parte do vínculo deixa de acontecer apenas com a pessoa que existe e passa a acontecer também com aquilo que imaginamos sobre ela.
Conversar bastante antes de um encontro não é necessariamente um problema. A questão aparece quando a expectativa cresce muito mais rápido do que a própria relação. Às vezes, alguém que ainda é praticamente um desconhecido já ocupa um lugar enorme emocionalmente. Se o encontro não corresponde ao que foi imaginado ou se a conversa simplesmente esfria, a frustração pode ser muito intensa. Não apenas porque aquela pessoa se afastou, mas porque também desaparece tudo aquilo que você começou a imaginar que poderia existir entre vocês.
Por isso, em ambientes digitais, pode ser útil lembrar que sentir conexão é diferente de conhecer profundamente alguém. A intimidade é construída não apenas pelas coisas que uma pessoa conta sobre si mesma, mas pela experiência repetida de observar como ela age, como se comunica, como responde às suas necessidades e como se posiciona diante de situações que não saem exatamente como esperava.
Ghosting, rejeição e as histórias que contamos para nós mesmos
Uma das experiências mais frustrantes dentro dos aplicativos acontece quando alguém simplesmente desaparece. Vocês estavam conversando, talvez tenham saído algumas vezes, parecia existir interesse e, de repente, nenhuma resposta. O famoso ghosting é especialmente doloroso porque deixa pouco espaço para um encerramento claro e muito espaço para interpretações.
Quando não recebemos uma explicação, nossa mente tenta produzi-la. “Será que falei alguma coisa errada?”, “fui intensa demais?”, “será que não gostou de mim pessoalmente?”, “encontrou alguém melhor?”, “eu deveria ter agido diferente?”. Para quem já possui medo de abandono ou rejeição, esse tipo de experiência pode ativar inseguranças antigas e transformar uma interação relativamente recente em uma confirmação de crenças muito mais profundas sobre si.
É claro que desaparecer sem qualquer comunicação pode dizer algo sobre a maneira como aquela pessoa lida com desconforto, responsabilidade afetiva ou encerramentos. Mas é importante não transformar o comportamento de alguém que você ainda conhece pouco em um diagnóstico sobre o seu próprio valor. Talvez aquela pessoa simplesmente não quisesse continuar. Talvez tenha faltado maturidade para comunicar isso. Talvez tenha acontecido alguma coisa que você nunca saberá. Nem sempre teremos todas as explicações que gostaríamos de receber.
Ser rejeitada por alguém pode doer, especialmente quando havia expectativa. Mas existe uma diferença enorme entre “essa pessoa não quis continuar comigo” e “ninguém vai querer ficar comigo”. O primeiro é um acontecimento específico. O segundo é uma conclusão sobre quem você é. E é justamente nessa passagem que muitas experiências de aplicativos começam a afetar profundamente a autoestima.
Nem todo encontro que não continua foi um fracasso
Outra expectativa que pode tornar os aplicativos emocionalmente cansativos é imaginar que cada conversa precisa levar a um encontro e que cada encontro precisa, de alguma forma, “dar certo”. Quando uma conversa não avança, parece perda de tempo. Quando o primeiro encontro não gera química, parece fracasso. Quando vocês saem algumas vezes e percebem incompatibilidades, surge a sensação de que aquela história “não deu em nada”.
Mas conhecer pessoas também é descobrir com quem você não quer construir alguma coisa. Perceber uma incompatibilidade importante não significa necessariamente que o processo falhou. Muitas vezes significa exatamente o contrário: vocês se conheceram o suficiente para perceber que não desejam continuar, e isso também é uma forma saudável de escolher.
Nem todo encontro precisa carregar o peso de encontrar “a pessoa”. Às vezes é apenas um café com alguém novo, uma conversa interessante ou a oportunidade de observar como você se sente perto de uma pessoa diferente. Diminuir a expectativa colocada sobre cada interação pode tornar a experiência muito menos desgastante e também ajudar a perceber os encontros com mais clareza, sem tentar rapidamente encaixar cada pessoa na categoria de “possível relacionamento”.
Você pode querer uma relação e ainda não estar emocionalmente disponível para uma
Existe uma diferença importante entre desejar companhia e estar disponível emocionalmente para construir intimidade. Muitas pessoas entram em aplicativos porque realmente querem encontrar alguém, mas estão atravessando momentos em que ainda existe pouco espaço interno para uma nova relação.
Alguém pode estar tentando superar um término, ainda esperando secretamente que o ex volte, querendo provar que conseguiu seguir em frente, tentando recuperar a autoestima depois de uma rejeição ou simplesmente procurando distração para não lidar com a solidão. Também é possível desejar profundamente uma relação e, ao mesmo tempo, se afastar sempre que alguém demonstra interesse verdadeiro ou se aproxima emocionalmente.
Os aplicativos não criam necessariamente esses padrões, mas oferecem um novo cenário onde eles podem se repetir. A pessoa que possui medo de abandono pode monitorar obsessivamente o tempo de resposta. Quem teme intimidade pode perder o interesse justamente quando percebe reciprocidade. Quem precisa de validação pode acumular matches e conversas sem realmente querer conhecer ninguém. Quem possui dificuldade de estabelecer limites pode permanecer em encontros desconfortáveis para não parecer grosseira. Quem aprendeu que precisa conquistar amor pode se sentir especialmente atraída por pessoas emocionalmente indisponíveis.
É por isso que observar sua experiência dentro do aplicativo pode oferecer informações interessantes sobre a forma como você se relaciona fora dele. O que acontece quando alguém demora a responder? O que você sente quando alguém demonstra muito interesse? Você se sente atraída por pessoas disponíveis ou perde rapidamente o interesse? Costuma insistir mais quando percebe distância? Esses padrões provavelmente não começam dentro do aplicativo, mas podem aparecer com bastante clareza ali.
Talvez seja mais útil observar como você se sente depois de usar o aplicativo
Mais do que perguntar se aplicativos fazem bem ou mal, pode ser interessante perceber como você costuma se sentir depois de passar algum tempo utilizando um deles. Você termina aquela experiência curiosa, leve e aberta para conhecer pessoas ou costuma sair ansiosa, cansada, comparando-se e questionando sua aparência? Seu humor muda conforme a quantidade de matches? Você fica verificando se uma pessoa respondeu? Começa a acreditar que ninguém é interessante? Passa a olhar para seu corpo com mais crítica?
Também vale observar em que momentos você sente mais vontade de abrir o aplicativo. É porque realmente deseja conhecer alguém ou porque está entediada? Você costuma entrar quando sente solidão, depois de uma discussão, quando alguém de quem gosta demora a responder ou logo após uma rejeição? Há momentos em que deslizar novos perfis funciona quase como uma tentativa de lembrar a si mesma de que “existem outras pessoas” disponíveis?
Não existe uma resposta universalmente certa ou errada. O mais importante é perceber a função que aquela ação está cumprindo. Se o aplicativo está sendo uma maneira saudável de ampliar seu círculo de contatos, ótimo. Se está se tornando uma estratégia para evitar emoções desconfortáveis ou receber doses rápidas de validação, talvez valha a pena observar essa relação com mais cuidado.
Quando o aplicativo começa a se misturar com a autoestima
Existe algo especialmente delicado nos aplicativos de relacionamento: eles nos colocam em um ambiente em que somos avaliados de forma extremamente rápida. Uma fotografia, algumas frases, poucos segundos de atenção e uma decisão. É difícil passar por esse tipo de experiência repetidamente sem que, em algum nível, isso toque na maneira como nos percebemos.
O problema começa quando cada match passa a funcionar como confirmação de valor pessoal. Algumas pessoas começam a trocar fotos obsessivamente, comparar seus perfis com os de outras pessoas, questionar o próprio corpo, modificar a maneira como se apresentam e analisar constantemente o que poderiam fazer para receber mais atenção. Nesse momento, o aplicativo deixa de ser apenas um lugar de encontro e começa a se tornar uma espécie de sistema de pontuação da própria desejabilidade.
Mas um perfil é uma representação extremamente limitada de uma pessoa. Ele não mostra a sua maneira de cuidar de alguém, seu senso de humor em uma conversa longa, sua sensibilidade, a forma como você escuta, a maneira como acolhe alguém em um momento difícil, seus valores, sua presença ou aquilo que faz com que as pessoas que convivem com você gostem da sua companhia. Uma decisão tomada em poucos segundos diante de uma fotografia jamais conseguiria capturar tudo aquilo que você é dentro de uma relação.
Por isso, se perceber que utilizar um aplicativo tem feito você se sentir consistentemente pior consigo mesma, talvez o mais importante não seja descobrir como conseguir mais matches, mas entender por que essas respostas externas começaram a ter tanto poder sobre a maneira como você se percebe.
Aplicativos também podem ser uma ferramenta muito útil
Também não concordo com a ideia de que conhecer alguém “naturalmente” seja necessariamente mais verdadeiro, romântico ou saudável. Nem todo mundo possui uma rotina que favorece novos encontros. Algumas pessoas trabalham remotamente, outras mudaram de cidade, possuem círculos sociais pequenos ou simplesmente frequentam ambientes em que raramente conhecem alguém compatível.
Para pessoas LGBTQIA+, por exemplo, aplicativos podem ampliar significativamente as possibilidades de encontrar outras pessoas que compartilhem orientações, identidades e formas de se relacionar que talvez não fossem tão fáceis de encontrar em seus círculos cotidianos. Para quem possui uma rotina intensa, eles também podem facilitar encontros que provavelmente nunca aconteceriam de outra maneira.
Não existe uma forma mais legítima de conhecer alguém. Você pode encontrar uma pessoa em uma festa, no trabalho, em uma viagem, por meio de amigos, no Instagram, em um curso ou deslizando um perfil enquanto estava deitada na cama numa terça-feira à noite. O lugar onde vocês se conheceram pode até render uma boa história, mas dificilmente será aquilo que determina a qualidade da relação.
O que importa começa muito mais depois do encontro do que antes dele.
Um match não é um relacionamento
Talvez uma das maiores confusões que os aplicativos favoreçam seja a velocidade. Em segundos, duas pessoas dão match. Em poucas horas, podem trocar dezenas de mensagens. Em alguns dias, podem saber muitos detalhes uma sobre a outra. Mas relacionamentos não são construídos na mesma velocidade que aplicativos funcionam.
Um match inicia apenas uma possibilidade. Uma conversa pode levar a um encontro. Um encontro pode levar a outros. Mas nenhum desses acontecimentos garante uma relação. O que transforma aquela possibilidade em vínculo é tudo o que acontece depois: consistência, reciprocidade, respeito, comunicação, capacidade de estabelecer limites, compatibilidade de valores, disponibilidade emocional e disposição para atravessar as inevitáveis diferenças que aparecem quando duas pessoas começam realmente a se conhecer.
Intimidade exige tempo. Exige experiências repetidas que permitam perceber se aquilo que alguém diz corresponde ao que faz. Exige confiança construída aos poucos. Exige observar como a pessoa reage quando é contrariada, como lida com seus limites, se demonstra interesse genuíno pela sua vida e se consegue conversar quando alguma coisa não vai bem.
É possível dar match em segundos, mas conhecer alguém leva muito mais tempo.
Então, eu recomendo aplicativos de relacionamento?
A resposta é: depende da relação que você consegue construir com eles.
Se você deseja conhecer pessoas novas, consegue utilizar o aplicativo sem transformar cada interação em uma avaliação sobre o seu próprio valor e consegue reconhecer que nem todo encontro precisa se transformar em uma história de amor, ele pode ser uma ferramenta bastante interessante. Também pode ser útil se você consegue conversar com alguém sem construir mentalmente uma relação inteira antes de conhecê-la e se consegue perceber incompatibilidades sem interpretar cada tentativa que não continua como um fracasso pessoal.
Talvez seja interessante fazer uma pausa, por outro lado, quando perceber que abre o aplicativo principalmente para aliviar ansiedade, diminuir solidão ou buscar confirmação de que ainda é desejada. Quando continua deslizando perfis mesmo se sentindo emocionalmente exausta, quando cada ausência de resposta afeta profundamente sua autoestima ou quando novas pessoas estão sendo utilizadas apenas para tentar esquecer alguém anterior, talvez valha a pena olhar com mais atenção para o que está acontecendo.
Existe uma diferença que considero especialmente importante: desejar ser escolhida e conseguir escolher.
Às vezes, uma pessoa fica tão preocupada em conseguir despertar interesse que praticamente esquece de avaliar o que sente pelo outro. Está tentando parecer interessante, bonita, divertida, disponível e desejável, mas pouco se pergunta se aquela conversa realmente a interessa. Preocupa-se em não ser rejeitada, mas não observa se a outra pessoa combina com aquilo que deseja para uma relação.
Você está tentando fazer com que essa pessoa goste de você. Mas você gosta dela? Está preocupada com o tempo que ela leva para responder. Mas gosta da maneira como ela conversa com você? Quer muito que o encontro dê certo. Mas consegue perceber como se sente quando está ao lado dela?
Quando estamos muito ocupados tentando ser escolhidos, podemos esquecer que também temos o direito de escolher.
Talvez a pergunta mais importante não seja onde você vai conhecer alguém
No fim, acredito que os aplicativos são apenas um novo espaço onde questões muito antigas aparecem. Medo de rejeição, desejo de pertencimento, solidão, necessidade de validação, medo de intimidade, idealização, comparação, expectativas e desejo de ser escolhido já existiam muito antes do primeiro aplicativo de relacionamento. A tecnologia modificou o cenário e acelerou algumas experiências, mas não criou do zero aquilo que carregamos para os nossos vínculos.
Por isso, antes de perguntar “será que vale a pena baixar um aplicativo de relacionamento?”, talvez seja interessante fazer outras perguntas. O que você está buscando neste momento? Está realmente disponível para conhecer alguém? Como costuma reagir quando percebe rejeição? Consegue compreender que alguém não se interessar por você não significa que exista algo errado com você? Tem espaço emocional para conhecer uma pessoa real ou está procurando alguém que corresponda perfeitamente a uma ideia que criou?
Também vale se perguntar se você consegue perceber seus próprios limites, se consegue se afastar quando algo não faz sentido, se está procurando companhia ou tentando desesperadamente escapar da solidão e se deseja construir intimidade ou apenas sentir que alguém deseja você. Essas respostas provavelmente dizem muito mais sobre sua experiência nos aplicativos do que o aplicativo que você decidir utilizar.
Relacionamentos saudáveis também não exigem que você esteja completamente “resolvida” antes de conhecer alguém. Essa ideia de que precisamos aprender a nos amar perfeitamente antes de sermos capazes de amar outra pessoa pode soar bonita, mas é bastante simplista. Todos nós entramos em relações carregando inseguranças, histórias, medos, necessidades e vulnerabilidades.
O que faz diferença é conseguir reconhecer aquilo que é seu e aquilo que pertence à relação. Outra pessoa pode oferecer companhia, afeto, cuidado, troca, desejo, presença e segurança. Mas dificilmente conseguirá assumir sozinha a tarefa de fazer você se sentir suficiente, curar todas as experiências anteriores ou eliminar completamente sua sensação de solidão.
Talvez seja por isso que, para mim, a pergunta mais interessante nunca seja simplesmente se aplicativos de relacionamento “funcionam”. Eles funcionam para aquilo que foram criados: aproximar pessoas que talvez não se encontrassem de outra forma. O que acontece depois depende das pessoas que se encontraram, da disponibilidade emocional de cada uma e daquilo que ambas conseguem construir juntas.
Então, antes de procurar a próxima conexão, pode valer a pena observar também a relação que já acontece todos os dias: a relação que você constrói consigo mesma. Não porque precise estar completamente bem, sem inseguranças e sem medos para se relacionar, mas porque conhecer seus padrões, limites, necessidades e expectativas pode ajudá-la a entrar em novos vínculos com muito mais consciência.
Talvez essa seja uma das formas mais saudáveis de utilizar qualquer aplicativo de relacionamento: não como um lugar onde alguém finalmente provará que você merece ser escolhida, mas simplesmente como mais uma possibilidade de encontrar pessoas.
O match pode aproximar vocês.
O restante da relação não é o algoritmo que constrói.
São vocês.
E você, sente que os aplicativos de relacionamento facilitaram os encontros ou tornaram mais difícil construir conexões profundas? Como tem sido a sua experiência com eles?


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